Já Diziam os Incas…

July 23rd, 2010 por Eber Guny

E arrumaram suas mochilas para sair de Arequipa. Mas não saíram. Ficaram. A cidade que, em Quechua, idioma Inca, leva o exuberante nome de “Sim, fique!”, apoderou-se de seus destinos em função de uma tal greve das empresas de transportes e, por 3 dias, comungou, junto a eles, ricas descobertas sobre a formosidade de um povo, remanescentemente, Inca. Além disso, enviou-os à cidade de Aguas Calientes, no departamento de Cusco, em uma data especial:

-“Sim, fique!” em Aguas Calientes! Junto à cidade que agora se faz em ruínas, construída por meu povo. Sinta Machu Picchu! Mesmo que de longe, mesmo sem a ver.  – Sinalizava.

Sete horas de viagem em carro, três de caminhada e lá estavam, aos pés de Machu Picchu, num povoado simpático e tranquilo, chamado Aguas Calientes. Leva o nome pelas águas termais que ali se encontram para banhar e brindar com, e exclusivamente com, turistas, a sensação indescritível de estar em meio aos Andes e cada vez mais próximo ao santuário.

Foi no segundo dia de estadia que receberam a notícia que ficariam “ilhados” em Aguas Calientes por mais alguns dias. O rio subiu, levou com ele o trilho do trem que dá acesso à cidade e arrastou a trilha que pode ser feita a pé, para entrar e sair da cidade. E, tudo isso, Arequipa já sabia. Eles não.

De acordo com ações e expressões da “população à deriva”, o sentimento de intranquilidade, ao longo dos dias, foi sendo derrotado pelo de felicidade. Não é para menos, uma vez que estavam vivendo em um povoado repleto de pessoas com sinceros sorrisos e enormes e aconchegantes braços para acolher-los.

O despertador solar abria-lhes os olhos cedo da manhã. Graças! Após outra noite de chuva intensa, o sol raiava, mais uma vez, pela manhã.

- Graças! –Repetia o rio Urubamba.

Hora de ir para a fila, buscar o café da manhã. Fome? Não! E, se o café não fosse suficiente, aguardavam mais umas poucas horas e já estava sendo distribuido o almoço. Fome? Não! Houve um dia em que o café da manhã foi tanto que chegaram a recusar o almoço, tamanha saciedade que lhes proporcionou o suco, a barra de cereal, o chocolate, o sanduíche e a maçã. Mas tudo bem, ainda poderia, quem quisesse (dentre turistas, é claro) pegar, em um dos dias, um saco de leite acompanhado de uma porção de bolachinhas. Isso à tardinha, pois, à noite, estava servida a janta. Ainda, em outro dia, receberam cobertores, aqueles que não os tinham.

Colônia de férias. Sociedade Alternativa. Para muitos turistas, algumas tentativas de rotular a estadia em Aguas Calientes. Afinal, tarde de futebol, noite de vôlei e gincana não é para um lugar que está em apuros, esperando resgate, sem água e sem comida. Violão e flauta, e lá estavam os chilenos agitando a noite do povoado, transformando, cada vez mais, a intranquilidade em felicidade. Sim, a juventude, ou, simplesmente, o futuro, como diziam alguns.

A evacuação começou, e escutavam-se gritos, destinados aos helicopteros, desde o campo de futebol: “Deixa-me por último!”. Fome? Não! Sede? Tão pouco. “Pra que sair desta harmonia internacional?”, perguntavam-se os jovens que esperavam a vez de seus times entrarem em campo.

Enquanto isso, os peruanos, humildes e puros cidadãos, pediam desculpas por todo o transtorno que a natureza estava proporcionando, pediam que não saíssem com rancor daquele lugar, pois, infelizmente, as chuvas estavam fora dos padrões. E que, se possível, voltassem em outra oportunidade para conhecer melhor e retirar esta impressão. Na verdade, parece-me que eles ainda não saíram de lá para que pudessem voltar, e talvez nem saiam daquele lugar, pois trouxeram, consigo, em seus corações, cada sorriso, cada abraço e cada gesto carinhoso de um lugar chamado Aguas Calientes.

Últimos na fila da evacuação em função da propina americana? Pois que atire a primeira pedra aquele que, frente à necessidade de elencar 40 pessoas, das 65 com seus motivos pessoais, para embarcar no avião da Força Aérea Brasileira, não pensou em si. Sim, o avião levantaria vôo com 40 pessoas, não mais que isto, se o tempo estivesse fechado. Do contrário, embarcariam as 65. Pois é. A ganância reside em qualquer lugar do mundo e, geralmente, está aliada ao cifrão. Não será o peruano, o americano,e nem o brasileiro o povo livre deste mal. Últimos, e com prazer.

Enfim, em Cusco, prontos para embarcarem no Hércules, faziam agradecimentos ao Excelentíssimo Vice-Cônsul do Brasil no Peru, o alegretense João Gilberto, ao Embaixador Jorge Taunay, à Fuerza Aerea Peruana, à Força Aérea Brasileira e ao povo peruano, por terem feito o máximo de esforço para pacificar as relações e organizar a evacuação turista da cidade. Que fiquem em paz aqueles que não tiveram vez nos helicopteros, pelo menos enquanto os turistas estivessem por lá.  Aqueles que, na lista de prioridades, ocupavam o lugar do asterisco, da observação, do desnível: Residentes peruanos não embarcam.

 

E Arequipa dizia:

- “Sim, fique!”

- Mas em Arequipa? –Insistiam em retrucar os inocentes mortais.

Em Aguas Calientes! –Preferiram os Incas.

Daniel Longo Rockenbach

Dlongo1113@yahoo.com

 
 

Passei minha adolescência inteira num albergue

July 15th, 2010 por Eber Guny

Normalmente é difícil percebermos a importância que certos momentos terão em nosso futuro enquanto os estamos vivendo. Hoje é o aniversário de uma grande amiga de infância e fui até a casa dela para abraçá-la e dizer o quanto ela e sua família são importantes para mim. Enquanto conversávamos sobre a vida, remetemos nossas mentes ao passado e eu pude perceber mais um dos motivos de eu ser do jeito que sou hoje.

 

Quando minha mãe me trouxe de Recife para São Paulo, eu tinha uns 4 anos. Moramos em uma pensão para rapazes. A dona da pensão deixou que morássemos lá porque minha mãe, minha irmã e eu não tínhamos nenhum outro lugar para ir. Porém, não ficamos lá por muito tempo. Talvez 1 ano. Logo minha mãe conheceu um rapaz que alugou uma outra casa para nós moramos. Na verdade era um apartamento num sobrado bem legal, grande e espaçoso.

 

Provavelmente devido a esta nova dimensão do nosso lar, alguns membros da família que moravam em Recife, vieram morar conosco. Inicialmente, 3 tios. Como eles eram bem novos, vivíamos como se fôssemos irmãos.

 

Não demorou muito e mudamos para outra casa ainda maior. Minha mãe queria morar numa casa que estivesse alugada no nome dela, pois em algumas brigas com o marido, eles sempre discutiam sobre quem tinha o direito supremo sobre aquele lugar. Ela pagava o aluguel, mas o apê estava no nome dele.

 

Esta nova casa (sob a custódia total da minha mãe) se tornou um verdadeiro albergue. A casa da mãe Joana. O lugar era grande e ainda havia um quintal enorme na frente. Abrigamos muita gente no espaço de uns 8 anos que moramos lá. Esse período englobou toda a minha adolescência.

 

Não vieram apenas parentes do nordeste passar uma temporada conosco. Amigos de amigos chegavam a morar conosco de tempos em tempos. A campanhia nunca parava de tocar e todos os dias sempre acontecia alguma coisa diferente. Era um entra e sai de gente constante. Uns chegando do trabalho, enquanto outros iam para a escola e uma terceira leva ia para a igreja. Aquele período foi uma verdadeira novela. Comédia, drama, suspense, casos de polícia, intrigas religiosas…. Não tenho nenhuma noção de quantas pessoas passaram por lá. Quantas declarações de amor foram ouvidas naquele quintal, quantas gargalhadas demos, quantas festas de aniversário foram realizadas, quantas despedidas…

 

Hoje me pergunto se isso não foi um dos facilitadores da minha adaptabilidade em locais como os albergues que percorro pelo mundo. Talvez eu tenha absorvido um pouco do jeitão altamente gregário da minha mãe. Com certeza essa é uma das qualidades que mais admiro nela.

 

Outro ponto que me recordo desse tempo é que sempre nos ajudávamos. Era só alguém passar mal, ficar desempregado ou estar doente que todos se preocupavam, por mais brigados que estivessem. Esse espírito de união é tão bom. Tenho comigo que a humanidade em geral deveria ser assim. Não apenas com os próprios parentes, mas com qualquer pessoa.

 

Até estava discutindo sobre isso com a Verônica um dia desses. Dar suporte a um familiar, só porque ele tem “o mesmo sangue” para mim soa como uma obrigação. O bacana é ajudar mesmo quem precisa que eu seja a sua família.

 

Alguém pode dizer: “Ah, no mundo de hoje não dá pra confiar em ninguém. Só deixo entrar na minha casa quem realmente é muito próximo a mim”.

 

Pois é, pensando desse jeito será mais difícil ter as pessoas “próximas” a você. Acho uma perda de tempo ficar evitando as pessoas. Controlando e dosando de forma diferenciada amor, ajuda e afeto.

 

Certa vez, quando estava voltando do trabalho para casa, encontrei um mendigo cantando no ponto de ônibus, num dia bem chuvoso e frio de Julho. O cara estava num estado lastimável. Foi inevitável, me vi no lugar daquele homem. Ele precisava de um banho, um guarda-chuva, roupas secas, fazer a barba, comer um pouco. É obvio que tive que me certificar que ele não era um completo louco antes de convidá-lo a ir para a minha casa. Nem gosto muito de usar esse termo “minha casa”, mas sem neuroses…

 

Esse cara se mostrou ser bastante inteligente. Durante o jantar, para minha surpresa, notei que ele conhecia diversos assuntos interessantes, mas nem que não conhecesse nada, eu já me sentia feliz por poder ajudá-lo de alguma forma. Vê-lo com uma aparência melhor me deixou mais realizado do que quando recebi o resultado da minha contratação no primeiro emprego.

 

É por isso que hoje admiro os seres expansivos, descomplicados, extravagantes e de peito aberto para o mundo, de braços abertos para as pessoas (boas ou não tão boas), de sorriso fácil para a vida.

 
 

Você pretende visitar Gaza? [3]

June 25th, 2010 por Eber Guny

Bom, vamos lá.

A mocinha que falou comigo antes do check-in, colocou um post-it verde com um S bem grande no meu passaporte. Eu nem sabia o que aquilo significava.

Fui para o balcao do check-in e o rapaz me atendeu super bem. Fiquei mais aliviado, mas a garota tinha conseguido me deixar num estado de tensão levemente acina do normal para dias de embarque.

Peguei o bilhete e fui para a entrada do setor restrito aos passageiros. Antes, comentei o que tinha acontecido para a Verônica e o Tadeu. Achamos tudo muito estranho, mas agora seria só embarcar. Talvez a coisa fosse mais barra pesada em TelAviv quando eu desembarcasse.

Me despedi deles, até meio emocionado. Não sei porque, mas sentia que essa viagem seria diferente, muito diferente. Eu me sentia mais seguro, maduro, talvez até preparado para isso. Estou envelhecendo… Logo completaria 26 anos.

Já na área do Duty Free resolvi olhar algumas coisas para distrair enquanto não dava o horário limite de se apresentar para a entrada no avião. Foi aí que ouvi o anuncio:

“Senhor Eber Santos do vôo ELAL Israel, por favor dirija-se ao portão de embarque e se apresente.”

Nessa hora eu senti uma sensação desagradável que me acompanharia por horas. Lá fui eu imediatamente me apresentar.

“Eu sou Eber Santos”

“Me acompanhe, por favor”

Fui levado por um longo corredor até uma área oculta por um biombo. Lá, fui deixado com outra moça vestida com roupas de policial e um bastão com paninho na ponta.

Ela não parecia ser uma pessoa simpática. Eu confesso que destesto ter que fazer cara de bom menino para me livrar de certas situações, mas engoli seco aquela situação e resolvi colaborar em tudo.

Primeiramente ela começou perguntando o propósito da minha viagem, e um monte de outras perguntas-padrão. Respondi tudo da mesma forma que vinha respondendo sempre. A verdade estava do meu lado.

Enquanto isso ela passava o paninho na minha mochila pequena que viajaria comigo dentro do avião. Claro, eu estava sendo considerado “Suspeito”. Talvez, por ter dito que gostaria de ir pra Gaza se fosse possível. Talvez por ser jovem, brasileiro e estar viajando sozinho (normalmente brasileiros só viajam para Israel em grandes grupos religiosos ou no mínimo duplas).

Ela ia falando comigo e passando o paninho na mochila toda, até no interior.

- Retire as coisas de valor, por favor.

Ela passou o paninho dentro da mochila mais uma vez e… levou ompanhinho a uma máquina que estava do lado dela. Uma máquina grande.

 Sim, para meu desespero a máquina começou a alarmar uma sirene e uma luz vermelha.

Ela chamou outro segurança pelo rádi. Sempre falando em inglês. O cara falou pra ela trocar o filtro da máquina e ela disse que o filtro estava perfeito.

O cara logo chegou, na verdade um garoto de uns 23 anos, acho, e disse que precisaria me revistar. Enquanto isso me fez várias perguntas e disse que eu precisaria passar uma revista mais rigorosa.

Colocaram um biombo em uma área ainda mais oculta no aeroporto, tipo um galpão. A coisa já estava ficando ridícula.

 Pediram para eu tirar o sapato, que seria levado para análise.

Sem eu ter que tirar a roupa, ele disse que passaria uma luva por todo meu corpo. Esta luva seria levada para análise numa máquina.

 Nesse momento a pergunta que passei a ouvir, foi:

“Alguém lhe deu alguma coisa a ser entregue a outra pessoa em Israel?”

Eu respondia:

“Apenas a minha gerente. Ele me deu um papelzinho com uma petição que deverá ser colocado no muro das lamentações.”

Enquanto perguntava ele passava as mãos com luvas plásticas bem finas pelo meu copo em partes. E levava para a máquina. Eu tinha que ficar esperando ele voltar.

“Vou precisar checar a sua cueca, pois o teste acusou alguma coisa esta região.”

Sim, tive que baixar a calça para que ele analisasse a minha cueca também. Essa foi a única parte ”engraçada” desde o começo da Via Crucis. Sem mais detalhes. =D

Depois de algum tempo respondendo perguntas e descalço, outro segurança trouxe meu tennis. Falou para eu calçar e ir para o avião, mas não poderia embarcar com a mochila, que seria despachada na parte de baixo do avião.

Me senti meio mal nesse momento. É uma sensação de dívida, como se eu fosse um criminoso. Sabia que estavam fazendo o dever deles, mas não deu pra controlar essa sensação.

 O oficial me acompanhou até a porta do avião. Parecia que eu estava sendo escoltado por deportação. Foi estranho.

Quando entrei no avião, eu estava todo mucho. parecia que todo mundo sabia quem eu era. Que eu queria ir pra Gaza, que eu estava viajando sozinho, portanto era suspeito e um risco potencial para todos. Foi um vôo de 14 horas TENSO.

Eu só pensava….

“Será que em Tel Aviv a coisa será pior? Vão me deportar? Por que me deixaram embarcar? Que me deixassem no Brasil para eu não ter que passar por isso!”

Mal dormi durante todo o vôo. Só consegui porque estava extremamente exausto. Fiica e psicologicamente.

 
 

Você tem planos de ir para Gaza? [Parte 2]

June 15th, 2010 por Eber Guny

Moro com minha mãe e meu padrasto em São Paulo, mas quando percebi que a viagem para Israel ia sair do papel, estava sozinho em casa. Minha mãe tinha viajado para o nordeste e meu padrasto que tem uma oficina mecânica, resolveu dormir por lá, pois a casa o faria sentir saudade da minha mãe.

Sendo assim, liguei para a minha mãe e contei que ia viajar para Israel. Ela adorou a idéia. Em anos anteriores teria chorado compulsivamente por horas, mas agora estava tão acostumada que nem esboçou grandes reações com a notícia.

No trabalho a coisa piorava a cada dia que passava, pois a minha ausência sobrecarregaria meus colegas. Por isso, eu precisava deixar tudo o mais correto possível para esses 10 dias. Infelizmente não foi possível e no dia que fui para o aeroporto (direto do trabalho) saí

consciente de que seriam dias problemáticos com os meus clientes. Mas eu teria que abstrair e curtir cada minuto da viagem, pois as cobranças e problemas nunca deixarão de existir. Esse era o meu break.

Tomei um ônibus que sai da rodoviária Tietê e vai direto para o aeroporto internacional de Guarulhos, paguei R$32,00 por isso, mas não tinha escolha. Não queria me atrasar para o embarque.

Verônica e Tadeu disseram que iriam se despedir e desejar boa sorte no aeroporto. Foi por isso que quando cheguei diante do checkin da ELAL Israel, decidi esperá-los antes de me apresentar para a cia aérea. Como estava ansioso e eles demoraram, resolvi ir sozinho mesmo.

Havia uma fila antes do balcão da Elal. Algumas pessoas da empresa faziam uma perguntas para os passageiros antes de liberá-los para o check-in. ´Pensei que fosse algo de rotina e visava apenas facilitar o embarque. Ledo engano.

Quando chegou a minha vez, uma garota me chamou. Eu estava com o mochilão entre as pernas.

 - O seu passaporte, por favor.

 - Você está sozinho?

- Porque você está viajando sozinho?

- Qual é o propósito da sua viagem?

R: Conhecer os lugares históricos e me divertir.

Só um minuto, vou checar o seu nome e já volto.

Vi a moça indo falar com um homem de terno que estava atendendo o pessoal da fila da primeira classe. Cochichou algo no ouvido dele e os dois vieram juntos conversar comigo.

A moça perguntou se eu falava inglês e eu disse que sim.

O homem me cumprimentou e perguntou em inglês qual era o propósito da minha viagem.

- Você tem planos de ir para a Faixa de Gaza? – perguntou a moça.

Foi aí que eu me apavorei. Eles fuçaram as trocas de e-mails que tive com o hotel e o Refaat! - pensei comigo mesmo.

Eu tive que dizer que sim, pois na minha mochila pequena que eu carregava nas costas tinha o voucher do Hotel em Gaza.

 

- Sim, eu quero ir se for possível. Não sei se há algum impedimento. Na verdade, tenho poucas informações sobre esta região, por isso a curiosidade.

Eles se entreolharam e nesta hora olhei para a Verônica e o Tadeu que já tinha chegado.

- Quem são eles? – perguntou a moça.

R: São meus amigos. Vieram pra se despedir.

Verônica tem cara de gente do oriente médio, assim como eu.

Ela traduziu para o homem de terno e continuaram as perguntas.

- Que lugares você quer conhecer em Israel?

Falei sobre o meu roteiro, mas omiti Gaza.

- Que lugares você quer conhecer em Jerusalém?

R: A igreja do Santo sepulcro, o monte das Oliveiras…

Que mais? – perguntou o homem de preto. Como se aquilo valesse a minha viagem.

Nessa hora deu um rápido branco na minha memória.

R: O museu do Holocausto, o jardim do Getsemani…

Okay, pode liberá-lo. – disse ele para a moça. E fui para o check-in.

Mal sabia eu que isso era apenas o começo da Via Dolorosa.

 
 

Você tem planos de ir para Gaza? [Parte 1]

June 15th, 2010 por Eber Guny


Comecei a mexer os pauzinhos para ir para Israel. Primeiramente tive a brilhante idéia (e sorte) de comprar o guia Lonely Planet “Israel & Palestinian Territories”.

Às vezes eu me acho um pouco descontrolado e sem noção. E foi com esse guia na mão que tive mais uma recaída. O livro fala sobre todos os lugares legais de Israel com riqueza de detalhes, mas o que mais me atraiu foi saber que havia uma possibilidade (mesmo que remota) de entrar na faixa de Gaza (eu nem sabia direito o que era essa tal faixa de Gaza, mas sempre vi as notícias na TV). Um lugar perigosíssimo, mas segundo o guia Lonely, valia uma visita. Folhei todas as páginas do guia que faziam referencia a Gaza. Estava maravilhado com o desafio. Algo me enchia por dentro de forma sedutora.

 


Adoro quando sinto esse tesão na viagem.

O que fiz em seguida? Fui buscar informações sobre como conseguiria entrar em Gaza com alguma segurança, se é que seria possível se sentir seguro por lá. Achei o site de um hotel (Aldeira), por sinal bem caro USD125 a noite. Hotel de frente pra praia e onde a maioria dos diplomatas e jornalistas estrangeiros se acomodavam nas curtas visitas. Tinha certeza que a experiência seria maravilhosa, no mínimo, bem diferente.

Logo enviei m e-mail para o hotel e fiz a reserva. Tive o cuidado de seguir a dica do guia e pedir que o hotel providenciasse um transfer do lado palestino da fronteira até a acomodação. Caso contrário, eu corria um sério risco de ser seqüestrado ou algo diferente.

Tudo certo. Feita a reserva do hotel, até imprimi o voucher.

Não sei como, mas encontrei o blog de uns palestinos em Gaza e comecei a trocar e-mails com eles sobre a possibilidade de simples “turistas” estrangeiros entrarem na faixa, pois alguns lugares falavam de uma autorização especial concedida apenas a jornalistas e diplomatas. Eu não fazia parte de nenhum dos dois grupos, era apenas um mochileiro louco pra conhecer esse povo cuja história estava me intrigando cada vez mais.

Quem mais me deu atenção foi um jovem palestino chamado Refaat. Foi prestativo e atencioso em todos os e-mails. No final ele se prontificou em ser meu guia, caso eu conseguisse entrar em Gaza. Fiquei muito feliz com essa receptividade do povo palestino e ainda mais ansioso em poder chegar lá.

Estava tudo pronto. Agora era só embarcar e tentar seguir o roteiro planejado: 3 dias em Tel Aviv, 2 dias em Eilat/Jordânia, 1 dia em Gaza e 3 dias em Jerusalém.

O que eu não imaginava era que para entrar em Israel eu sentiria na pele o rigor da tentativa de viajar para um país em constante guerra. Foi o momento mais tenso e exaustivo em todas as viagens que já fiz.

 

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